2008
Existe um "encadeamento" entre blogs, microblogs (mais especificamente o Twitter) e jornalismo tradicional? Essa foi uma das questões que me levou a acompanhar a cobertura de dois casos que movimentaram a imprensa e a opinião pública no primeiro semestre deste ano.
Muito discutimos sobre a importância da blogosfera no debate e na circulação de notícias. Além disso, circulam também muitas hipóteses sobre como um meio com apenas 140 caracteres (os microblogs) podem participar da cobertura de fatos noticiosos e de sua discussão. Ao mesmo tempo, circulam ainda muitas idéias preconceituosas que desconfiam que blogs e o Twitter oferecem pouca ou nenhuma contribuição social. E mais, inclusive antogonizariam com o que se entende (ou se entendia) por jornalismo.
A partir desses elementos, parti para uma observação sistemática da circulação de notícias e discussões sobre dois casos de violência contra crianças que, na época do estudo, ocupavam as primeiras páginas dos jornais. Para tanto, busquei reunir todo o material sobre os casos Isabella Nardoni e Madeleine McCain que encontrei em 3 jornais brasileiros (Folha de São Paulo e os jornais gaúchos Zero Hora e O Sul), na blogosfera (via Technorati) e no Twitter (via Twitter Search, antes chamado de Summize). O período analisado foi de 27 de abril a 12 de maio de 2008. O 16o. dia foi incluído em virtude da entrevista da mãe de Isabella no Fantástico, no Dia das Mães.
Durante o intervalo mencionado, quantificou-se o número de matérias (no miolo e na capa) e o número de cartas de leitores presentes nos 3 jornais avaliados. Os resultados podem ser observados na tabela a seguir. Vale lembrar que a dimensão das matérias (em cm/col) não foram consideradas.


No mesmo período, foram encontrados 440 tweets sobre o caso Isabella e 188 sobre o caso Madeleine (que completava naquele momento um ano de investigações). Cada uma dessas mensagens foi lida e classificada. Buscou-se avaliar se elas citavam organizações midiáticas tradicionais ou se eram de autoria dessas mesmas instituições (visando identificar o encadeamento midiático), se traziam opiniões sobre os casos, ou se faziam piada (humor negro) sobre as notícias. Tweets de outros tipos foram aglutinados na categoria "outros". Como se verá no gráfico sobre o caso Madeleine, 4% das mensagens não puderam ser avaliadas em virtude do idioma.
No primeiro caso, foram encontrados 145 links para outros sites. Dentre as mensagens que citavam os meios massivos, 134 criticavam a cobertura da mídia. Ao investigar-se quais hashtags foram utilizadas para organizar a discussão sobre o caso, as seguintes foram encontradas: #isabella (9); #casoisabella (15); #isabellanardoni (5); #nardoni (1).
Já o caso Madeleine movimentou 178 tweets. Como se vê na imagem seguinte, a maior parte das mensagens (70%) foi enviada pelas próprias organizações midiáticas, trazendo links para as matérias em seus sites jornalísticos. Dentre os tweets que mencionavam os meios de comunicação de massa, apenas 4 faziam críticas à cobertura midiática. No total, foram registrados 148 links em tweets para outros sites na Web. Apenas uma hashtag foi encontrada: #madeleine
A seguir, veja a ilustração da quantidade de tweets nos dias observados. Os picos no gráfico indicam discussões sobre o primeiro aniversário do desaparecimento de Madeleine, a entrevista da mãe de Isabella no Fantástico e a divulgação dos laudos deste caso.

Em um próximo post eu apresentarei os resultados sobre a cobertura dos casos na blogosfera e darei continuidade à discussão dos dados desta pesquisa.
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PS: Agradeço especialmente a Ricardo Golbspan pela dedicada participação nesta pesquisa




