2008
Agora que o Technorati terminou de publicar a análise dos resultados do relatório State of the Blogosphere 2008, quero fazer alguns comentários. Não vou repetir o que você pode ler direto na fonte, mas sim confrontar os dados coletados com alguns mitos sobre a blogosfera.
Conforme eu já tinha anunciado em julho, desta vez a pesquisa tem um cunho qualitativo, baseada em um longo questionário respondido por 1209 blogueiros de 66 países (veja aqui um pouco do método utilizado). Como relatei anteriormente, o questionário era dinâmico, ou seja, as perguntas futuras dependiam de respostas anteriores. Por exemplo, se alguém respondesse que utilizava blogs para fins corporativos, novas perguntas sobre essa prática eram apresentadas. Na verdade, essa foi uma dos encaminhamentos que mais me surpreendeu positivamente: questionar os entrevistados se eles usavam o blog de forma pessoal, profissional ou corporativa. Há muito tempo critico (aqui mesmo no blog, inclusive) a definição de blogs como diários pessoais. Logo, estava muito curioso para ver os resultados.
Em tempo, aproveito para lhe convidar para ver amanhã a minha proposta de gêneros de blogs, na qual venho trabalhando há muitos meses.
Blogs são diários pessoais?
É interessante que enquanto a blogosfera cresce e se complexifica, as definições sobre blogs ainda seguem repetindo a ladainha de que tratam-se de versões online de diários pessoais e que os posts em sua maior parte são confessionais.
O questionário enviado pelo Technorati para uma amostra de blogueiros perguntava logo no início sobre como eles identificavam seus blogs:
- Pessoal: sobre tópicos de interesse pessoal não associados com o trabalho;
- Profissional: blog sobre a indústria ou profissão às quais o blogueiro é filiado, sem que o blog seja da própria corporação;
- Corporativo: blog oficial da corporação.
A pesquisa revelou que de 5 blogueiros, 4 disseram que blogam sobre interesses pessoais. Antes que você diga "viu, eu disse que blogs eram diários pessoais!", veja o gráfico seguinte.

Como esses perfis não são mutuamente exclusivos, veja que a soma dá mais de 100%. Isso quer dizer que uma pessoa pode ter mais de um blog ou até mesmo falar sobre suas preferências pessoais em seu blog profissional. Logo, observe pelo outro lado, quase metade dos entrevistados dizem blogar profissionalmente (os probloggers, por exemplo) ou usam um blog/programa para tratar de suas profissões. Além disso, 12% dos entrevistados escrevem em blogs corporativos. Esses números nos mostram que em poucos anos morreu a definição simplista que blogs são o mesmo que diários íntimos online.
Blogs são confessionais?
O Technorati confirmou o óbvio: blogueiros escrevem sobre tópicos variados. Assuntos pessoais e profissionais são igualmente populares. Por outro lado, derrubou a idéia de que a grande maioria dos posts tem cunho confessional. Você já deve ter lido (e talvez escrito) muitos textos defendendo o tom confessional como essência dos blogs. Pois esta pesquisa mundial nos mostra justamente o contrário.
Ao questionar os sujeitos sobre quais estilos caracterizavam os textos publicados, metade dos blogueiros afirmou que seu estilo é sincero, conversacional e bem-humorado. O posicionamento de um especialista ("expert") foi também muito citado. No outro extremo, exatamente no final da curva, encontra-se o tom confessional. Menos de 1 em 5 blogueiros assumem esse estilo como típico de seus posts. A pesquisa mostrou que o tom confessional é mais comum entre pessoas com menos de 34 anos e entre blogueiros da Ásia. Mesmo assim, o valor bruto total é baixo.

Os analistas do Technorati também apontam que apesar dos blogs serem com freqüência identificados como espaço de fofocas e intrigas, essa postura pouco apareceu no relatório. Confira a listagem dos tópicos preferidos:
Claro, vale lembrar, expressão pessoal não é o mesmo que confessional. Ou seja, ser sincero (o estilo mais citado) não é o mesmo que falar abertamente de si. E, como se vê abaixo, a manifestação de opinião pessoal sobre os tópicos de interesse e o compartilhamento de conhecimentos estão entre as principais razões para blogar.

A confissão pública também esbarra no receio quanto às repercussões da exposição na Web. Um terço da amostra preocupa-se com sua privacidade, com o que seus amigos e familares pensarão deles. Sim, sabemos que isso varia de cultura para cultura. A pesquisa mostrou que os americanos preocupam-se menos com a privacidade que outros países. Suponho, contudo, que no Brasil essa preocupação é ainda menor. Como poucos foram os brasileiros que responderam a pesquisa, não temos dados ainda para confirmar essa tendência na blogosfera nacional.


De todo modo, é importante ressaltar mais uma vez que os blogs foram se distanciando da imagem de muro de lamentações. Mais do que isso, dentre as razões de blogar listadas anteriormente pode-se observar o crescimento de motivações profissionais e promocionais. O relatório inclusive mostra que muitos blogueiros já obtiveram vantagens (como receber presentes e ser convidado para entrevistas e palestras) por sua atividade na rede, incluindo maior reconhecimento profissional. Os gráficos abaixo detalham esses convites e vantagens.


Vale citar aqui uma das conclusões do Technorati sobre o "amadurecimento" da blogosfera:
"But as the Blogosphere grows in size and influence, the lines between what is a blog and what is a mainstream media site become less clear. Larger blogs are taking on more characteristics of mainstream sites and mainstream sites are incorporating styles and formats from the Blogosphere."
Ainda que o relatório de 2008 seja um grande avanço e uma importante contribuição para nossa compreensão sobre a blogosfera, é importante reconhecer que a amostra entrevistada foi selecionada dentre aqueles blogueiros registrados no Technorati. Logo, aqueles que não sabem o que é Technorati ou que não conhecem o sistema de registro (ou mesmo que não dão bola para isso), não puderam ser considerados. Podemos supor, portanto, que pequenos blogs e os blogueiros que não ligam ou não conhecem os serviços do Technorati não estão representados na pesquisa. Será então que os valores sobre tom confessional e blogs pessoais seriam muito maiores? Não sabemos. Mas quero insistir que isso não muda em nada a caduquice das definições de blogs como sinônimos de diários pessoais online.
Blog é coisa de rico e classe média?
Será que esse papo todo de blogs não faz sentido apenas entre as classes mais altas do Brasil?
Confesso que fiquei surpreso com essa tabela recentemente divulgada pelo Ibope:

Principais atividades realizadas na Internet, por Classe Social
Conforme o relato do blog Idéia 2.0 (do IDG Now), "Um dos fenômenos qualitativamente mais interessantes na evolução recente do uso da Internet no Brasil é sua utilização pelas camadas de baixa renda. De acordo com o IBOPE Mídia, esse grupo já respondia por 50% do total de usuários da Internet no final do ano passado, contra 39% em abril de 2004. Os dados do Comitê Gestor apontam que, graças à explosão do acesso em LAN Houses, 38% das pessoas integrantes da classe C, e 14% das classes D/E, já utilizam a rede com alguma regularidade. "
Lembro agora de meu amigo Vinícius Andrade Pereira comentando na Intercom 2008 que as LAN Houses vêm tendo um papel importante na chamada "inclusão digital" e que não está sendo abordada em estudos recentes.
Sem querer aprofundar esse debate, quero apenas chamar a atenção para a pequena diferença que existe na atividade "Criar/Atualizar Blogs" entre as classes sociais A, B, C, D/E.
______________
Antes de terminar, quero lembrar que amanhã publicarei aqui um post sobre minha proposta sobre gêneros de blogs, que busca refletir a imensa diversidade da blogosfera.




