"O Twitter vai terminar de matar o jornalismo". Será?

03Abr
2008

Twitter logoFoi mais ou menos isso que escutei no episódio 138 do podcast TWIT (This Week in Tech). Durante o programa, Steve Gillmor disse que o Twitter é hoje uma de suas principais fontes de informação (veja mais sobre diferentes usos do Twitter aqui). A partir disso, o debate prosseguiu sobre o possível fim do jornal impresso e até mesmo do jornalismo como o conhecemos hoje. Leo Laporte, âncora do podcast, citou um recente artigo da prestigiosa revista New Yorker sobre a vida e morte dos jornais americanos. O texto aponta que os jornais nos Estados Unidos vêm perdendo anunciantes, leitores e valor de mercado (o mesmo ocorre no Brasil). Para se ter uma idéia, as ações de importantes jornais caíram 42% nos últimos 3 anos. As ações da New York Times Company despencaram 54% desde 2004.

Este declínio vem sendo causado por novas tendências em circulação e propaganda, além, claro, da crescente força da internet. Eric Alterman, autor do texto na New Yorker, conclui que a internet está se transformando na principal fonte de notícias políticas para os leitores americanos. Isso já é realidade para os mais jovens e para aqueles com maior engajamento político, ele aponta. Por outro lado, a idade média de leitores de jornais americanos é de 55 anos.

Morte do jornalSe o jornal impresso de fato terminar, eu não sentirei saudades do papel pardo e poroso com imagens borradas e que sujam nossas mãos. Por outro lado, já confessei aqui que adoro ler o jornal de manhã na mesa do café ou lê-lo no fim-de-semana deitado na rede. Nestes momentos, o que menos quero é estar na frente de um notebook. Torço para que de fato o tão esperado papel digital seja logo desenvolvido, pois ainda gosto muito da interface das grandes páginas de jornais. Elas permitem uma visão panorâmica que os sites e monitores não podem oferecer. Gosto também de ir "escaneando" página por página, caderno por caderno, descobrindo notícias que eu não leria ou não perceberia na versão online de um jornal.

Esse processo que acabo de relatar possivelmente não ocorre em seu Twitter. Se você usa esse serviço, você deve "seguir" (que funciona como um processo de assinatura de informações) pessoas com gostos muito semelhantes aos seus. Encadeamento midiáticoSendo assim, você pode manter-se muito informado sobre assuntos cujo interesse é compartilhado naquele grupo de "twitteiros". Essa leitura seletiva é ótima para uma ultra-especialização em determinados assuntos. Por outro lado, pode nos isolar de outros temas que, a princípio, não atrairiam nossa atenção.

Essa discussão não é nova. Ela apareceu junto com as primeiras reflexões sobre hipertexto digital e jornalismo online. As ferramentas de busca, o clique apenas em matérias de total interesse e a assinatura digital de informações (o RSS veio potencializar essa prática) acabariam nos afastando de outras notícias, causando assim um novo processo alienante.

Por outro lado, creio que o Twitter (assim como os blogs) é mais uma fonte de atualização em nosso "mix informacional". Como os próprios debatedores do TWIT lembraram, esses dois meios citados abastecem-se de notícias da mídia tradicional. Creio que eles dão eco às matérias da mídia de massa e de nicho. E mais, os blogs permitem que elas sejam discutidas de forma dialógica, o que é bloqueado em jornais e tevês, por exemplo.

Como propus em meu último artigo, podemos hoje observar um "encadeamento midiático" entre os níveis de massa, de nicho e de micromídia. Se por um lado o Twitter e blogs (vistos aqui como micrimídia digital) potencializam a circulação de informações, as interações conversacionais nesses espaços virtuais têm também um importante papel político, na medida em que promovem uma reflexão sobre os temas difundidos na grande mídia, permitindo que as notícias não sejam apenas consumidas de forma a-crítica.

Mas o que seria dos blogs independentes e do próprio Twitter sem as estruturas jornalística institucionalizadas? Acredito que o jornalismo como um todo está se rearticulando. Está inclusive aprendendo com as práticas de webjornalismo participativo. Mas continuo acreditando que, para além de uma simples oposição entre isto e aquilo, precisamos adotar uma perspectiva sistêmica para analisar as atualizações do macro-sistema midiático em virtude das novas interações entre os sub-sistemas.

PS: Leia mais sobre a possível morte dos jornais nesta matéria do Guardian.



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(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

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Comentários:


Comentário de: Gabriela · http://www.verbeat.org/blogs/gabrielazago

Dá para optar por seguir as manchetes de veículos da mídia tradicional no Twitter, e, dessa forma, podemos ter acesso a notícias sobre vários assuntos - não só àquelas que interessam ao nosso círculo de amigos <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_smile.gif" alt=":)" /> Mas acho que no fundo é isso… cada meio/veículo acaba sendo mais um elemento do nosso "mix informacional", o que faz com que um meio/veículo não substitua o outro, mas complemente - dificilmente alguém vai procurar ler no papel, no blog, no twitter, ouvir no rádio e assistir na tv exatamente as mesmas informações. Mas se "pinçar" algo de cada um desses lugares, pode acabar tendo uma boa visão do que acontece no mundo, não necessariamente restrita a um único campo de atuação.


PermalinkPermalink 03.04.08 @ 13:23



Comentário de: Sandra Bordini Mazzocato · http://bobagemminha.blogspot.br

Abaixo o jornal!!
VIVA a alienação!!!


PermalinkPermalink 03.04.08 @ 13:34



Comentário de: Luis Santos · http://atrium.wordpress.com/

Alex,
Concordo com quase tudo (menos com a falta que o papel ainda faz…eu gosto do cheiro de jornal novo, gosto do tacto, gosto de o dobrar de uma maneira especial…;).
Acho que importaria ainda ver todo esse processo de mudança em contexto, ou seja, anotando que ela não acontece apenas no jornalismo, mas que afecta de forma igualmente estrondosa espaços como a publicidade ou as relações públicas, por exemplo.
Veja-se o que acontece com o marketing de guerrilha - faz lembrar aqueles peixinhos pequenos que andam sempre encostados às grande baleias…ora o peixinho vive porque tem lá a sua baleia. E se ela desaparecer…o peixinho vai ter que encontrar outra forma de vida, não é?
A realidade é tão complexa que olhares simplistas seriam pouco produtivos.
Abraço.


PermalinkPermalink 03.04.08 @ 14:06



Comentário de: Patrícia Moura aka MissMoura

Me chama a atenção a maneira como algumas pessoas relacionam novas mídias e alienação, e isso acontecer, até hoje, sinceramente me assusta.


Os veículos e meios de comunicação, seja lá quais forem, não alienam, ao contrário: eles informam, integram, aproximam pessoas, distribuem conteúdo (independente da qualidade), enfim, eles cumprem seu papel.



O Twitter é hoje minha melhor rede, a que mais me informa, gera oportunidades, aprendizado, troca, amizade etc. Não o vejo o formato de microblogging como um substituto em potencial para a mídia impressa, mas através dele, não só chego à notícia, assim como, compartilho as minhas opiniões sobre ela.


PermalinkPermalink 03.04.08 @ 15:02



Comentário de: Suzana Pedrinho · http://nucleoweb.blogspot.com

Alex,
Esta discussão é fundamental para o pensamento da Comunicação Social. A Comunicação não é mais ou apenas "Social", ela é mediada por máquinas e "agentes", o que nos possibilita uma imersão e uma troca quase instantanea entre pensamentos. A Faculdade de Comunicação ficou lá tras, discutindo ainda a Escola de Frankfurt e de Chicago (super importante, mas uma discussão histórica) e não debate o novo paradigma do mundo plano, onde saltamos entre nós na grande rede… A informação rompeu a antiga barreira do tempo-espaço, então fez-se o caos e as escolhas.
Com certeza o papel digital chegará e vamos ler nas camas e nas redes. Mas o que assusta é que grande parte dos profissionais e professores não estão percebendo, muito menos discutindo esta mudança.


PermalinkPermalink 03.04.08 @ 15:29



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Concordo com o que vocês comentam. O Twitter é uma excelente de forma de nos mantermos atualizados. Eu mesmo sempre trabalho com ele aberto.


Patrícia, de fato, associar alienação com este ou aquele meio é uma visão absolutamente determinista. Vejo hoje como Twitter e blogs são utilizados até em processos educacionais. E vejo como essas interfaces têm contribuído para a produção de sentidos e para o debate público.



Mas também observo cada vez mais uma inter-relação entre os diferentes meios de comunicação. Não creio que os blogs matarão a TV, por exemplo. Mas entendo que os blogs são um espaço virtual importante não apenas para a expressão, mas para a análise sobre o mundo em que vivemos. Tenho convicção que estes meios estão rearticulando toda a estrutura midiática contemporânea.


PermalinkPermalink 03.04.08 @ 16:52



Comentário de: marcia · http://marciabenetti.blogspot.com/

como assim, "terminar de matar" o jornalismo?
até parece que o jornalismo está morrendo…


PermalinkPermalink 05.04.08 @ 20:56



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Hehehehe! Nada como um bom sensacionalismo!


Como a frase está entre aspas, ela resume um pouco do que foi discutido no podcast referido… A parte final do título ("Será?") é que é de minha autoria!


PermalinkPermalink 05.04.08 @ 23:09



Comentário de: Marcio · http://marciopoetsch.wordpress.com

É anônimo…
Só que no mesmo texto do Gilberto aparece [...]não deve ser vista como um mal que irá mudar o jornalismo como o conhecemos hoje[...] e [...]devem ser vistas como uma extensão do jornalismo "tradicional" - um avanço, um complemento [...] <img src="/blogs/rsc/smilies/icon_smile.gif" alt=":)" />


PermalinkPermalink 07.04.08 @ 13:00



Comentário de: José Calazans · http://jose.calazans@gmail.com

Twitter é coisa do subconjunto da blogosfera
Twitter é mais um daqueles serviços dos quais todo mundo fala, fala, fala, mas ninguém usa. Só o pessoal excessivamente ligado a tecnologia, que eu chamo de "subconjunto da blogosfera" (eu até me incluo, às vezes, entre eles). Esse povo usa qualquer coisa de que se fala muito, para não parecer que está fora do mundinho high tech. Os internautas, de um modo geral, vão usar o Twitter algum dia? Não tenho bola de cristal, infelizmente, para afirmar isso (a minha bola queimou dois anos atrás quando eu disse que a Second Life não decolaria), mas dizer hoje que o Twitter é importante e que até ameaça o jornalismo… hummm!!! Menos, menos, meu caro…
Grande abraço e parabéns pelo blog e pelas discussões relevantes


PermalinkPermalink 17.04.08 @ 12:50



Comentário de: José Calazans · http://josecalazans.blogspot.com/

Em tempo, quem criou a expressão "subconjunto da blogosfera" não fui eu e sim um blogueiro chamado Sérgio F. Lima, também criticando a adesão de alguns blogueiros ao que ele chamou de "irrelevante Twitter".


PermalinkPermalink 17.04.08 @ 13:00



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Oi Calazans! De fato o Twitter ainda é pouco usado. Os "geeks" já estão todos lá, pois adotam com rapidez as novas tecnologis. De toda forma, é legal observar como o Twitter vem sendo usado para fins muito diferentes daqueles previstos.



Ei, eu não acho que o twitter vai matar o jornalismo! Era apenas um título provocador!!!


PermalinkPermalink 17.04.08 @ 16:52



Comentário de: Tiago Medina · http://telhadotiago.wordpress.com

Alex,
sei que essa é uma grande discussão que só desbriremos a resposta daqui a alguns anos, entre internet x impresso.
Acredito que devemos considerar o fenômeno popular, o grátis. Jornais desse tipo, ao contrário dos outros, vêm numa crescente. E tem público. Além disso, boa parte desse público não tem acesso à internet como nós (pessoas que discutem nesse espaço) temos. Só isso já garante um (grande) fôlego ao impresso.
Quanto ao twitter - sou meio novo nesse mundo 'micro', por isso posso estar escrevendo bobagem - quando for usado e considerado uma fonte de notícias, talvez até cause alguma mudança no jornalismo. Entretanto, também acho difícil que uma ferramenta de 140 caracteres altere os pilares do jornalismo.
O que nos resta, portanto, é acompanhar essas mudanças…


PermalinkPermalink 15.03.09 @ 19:48



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Tiago, o título deste post é uma provocação, claro. Hoje vemos cada vez mais uma integração de diferentes meios e tecnologias no fazer jornalístico.



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[...] Alex Primo, ao seu estilo de sempre, alfineta sobre os "estragos" que o Twitter pode fazer ao jornalismo, levando-o à sepultura. Será mesmo? Vá conferir. [...]


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TITLE: Conversa começa no Esquenta « NewsCamp
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[...] no post Conversando sobre Jornalismo e Novas Mídias escrito em parceria com Gilberto Consoni: 1-Será que o Twitter poderá acabar com o impresso? 2-Será que joguinhos e entretenimento serão a grande tendência do online? 3- As empresas [...]


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[...] Alex Primo, ao analisar o fenômeno, pinta um cenário que contempla mais o declínio dos jornais em papel. [...]


PermalinkPermalink 16.03.09 @ 14:48



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