2008
Ontem participei da banca de mestrado de Cristiane Lindemann. Sua dissertação, "O perfil da notícia no webjornalismo participativo: uma análise do canal vc repórter, do Portal Terra", foi orientada no PPGCOM/UFRGS pela professora Virgínia Fonseca. Durante a banca, juntamente com as professoras Marcia Benetti (UFRGS) e Christa Berger (Unisinos), pudemos rediscutir uma série de grandes temas do webjornalismo participativo.
Fiquei ainda mais convencido que trata-se de um conjunto de experiências, por vezes tão radicais, que têm uma importância fundamental para a história do jornalismo, como também para a própria teorização da área. O embate polarizado que inspirou os primeiros debates veio demonstrar que era hora de se repensar muitos conceitos e teorias do jornalismo. A radicalidade dos argumentos, tanto das utopias panfletárias quanto das visões conservadoras e corporativistas, tiveram papel importante em sacudir as certezas que insistiam em se cristalizar definitivamente. Ora, nada como uma boa briga para excitar nossos neurônios e fazer o conhecimento avançar.
De um lado, os pioneiros do webjornalismo participativo insistiam que as senhas conceituais da tradição não eram suficientes para interpretar esse novo fenômeno. De outro, jornalistas profissionais e sindicatos denunciavam os perigos da publicação de informações distorcidas e apressadas por pessoas sem maiores compromissos com o factual. Os primeiros retrucaram com novos ataques às idéias de imparcialidade. Seus oponentes no debate, por sua vez, revidavam com críticas sobre a falta de preparo dos leigos envolvidos. Também foram jogados na mesa os interesses mercadológicos dos conglomerados midiáticos, enquanto outros pagavam para ver o que sobrava da defesa pela democratização da informação.
Claro, carreguei nas tintas na ilustração desse debate, com o fim de destacar alguns dos principais argumentos. Mas o que sobra dessa "briga"?
Passados esses primeiros anos, precisamos agora ver o que amadureceu, o que enfraqueceu, o que a sociedade e o jornalismo ganharam com os projetos participativos e que modas e discursos panfletários perderam força.
Sabemos que dar voz a qualquer a qualquer cidadão é fundamental para o processo político. Contudo, conforme disse minha colega Marcia durante a banca, participação não é necessariamente o mesmo que democracia. Essa interessante provocação estava baseada em um dos dados levantados pela dissertação de Cristiane. Ao avaliar as fontes relatadas no vc repórter, encontrou os seguintes dados:
- fonte oficial - 73,33%
- fonte independente - 11,85%
- testemunhas - 11,11%
- fonte oficiosa - 3,70%
Para Marcia, 73% de fontes oficiais não indicam um processo democratizante. De fato, o webjornalismo participativo pode justamente diferenciar-se e oferecer contribuição social ao ultrapassar a repetição das mesmas informações oficiais. Em outras palavras, a participação é necessária, claro, mas não suficiente.
Infelizmente, o Terra tem uma atuação primária e decepcionante no webjornalismo participativo. Trata-se apenas de uma inciativa de gerar tráfego adicional em suas páginas com custo baixíssimo. O que importa são os cliques em material publicitário. As fotografias e os textos dos colaboradores, por incrível que pareça, têm papel secundário. Para se ter uma idéia do descaso do Terra, eles se negaram a contribuir com a dissertação ontem defendida.
Que bom que o vc repórter não é a regra. Enquanto isso, Slashdot, Overmundo, Digg, OhmyNews e tantas outras iniciativas seguem aperfeiçoando seus sistemas colaborativos.
A nós, que nos dispomos a pensar criticamente os processos comunicacionais, cabe atualizar o que precisa ser atualizado na teoria, sem medos, preconceitos, nem posturas panfletárias.
Confesso que tenho muito interesse por esse desenvolvimento. Ele têm repercussão na ciência da comunicação e no fazer jornalístico. Mas, sobretudo, no impacto social e democratizante da comunicação. Pena que essa perspectiva andava meio "fora de moda" depois dos anos 80.




