Correção de erros na Folha de São Paulo e em sites colaborativos

03Mar
2008

Na coluna do ombudsman da Folha deste domingo, Mário Magalhães segue discutindo a velocidade com que erros do jornal são corrigidos. Segundo noticiou no dia 10 de fevereiro, "Do dia em que saiu o erro até a correção, a média é de 7,34 dias [balanço de 2007]". A jornalista Suzana Singer, secretária de redação da Folha, reagiu lembrando que 54,55% das correções em 2007 (mais da metade, portanto) foram publicadas em até 3 dias.

Veja agora os outros resultados do tempo de divulgação do "Erramos" na Folha:

Liquid Paper

  • 4 a 6 dias - 15,30%
  • 7 a 10 dias - 10,86%
  • 11 a 20 dias - 9,57%
  • 21 a 30 dias - 5,43%
  • acima de 30 dias - 4,28%

Diante do protesto de Suzana, o ombudsman reconhece que nenhuma publicação brasileira retifica seus erros como a Folha. Ele deve ter razão. "A seção 'Erramos' fornida não é sinal de fragilidade, mas de pujança. Todos erram, só alguns corrigem".

Isso me fazer recordar um fato vergonhoso que denunciei em 2007. Mesmo que toda a imprensa tenha reconhecido a divulgação internacional de uma pegadinha jornalística, o jornal Estadão preferiu ignorar o erro e não retratar-se, até que passou a ser motivo de chacota na blogosfera. Lembra disso?

Voltando ao levantamento da Folha, Magalhães insiste que a média precisa ser baixada. "Em quatro anos de tabulação, a espera média começou em sete dias e assim permanece, sem avanço algum".

A seção 'Erramos", que qualquer jornal de respeito precisa manter, é um dos principais alvos dos defensores do webjornalismo participativo (veja uma introdução ao tema neste artigo que escrevi com Marcelo Träsel). Devido à pressão do tempo na rotinas jornalísticas diárias e o processo de impressão e distribuição de periódicos impressos, a publicação de erratas leva muito mais tempo que a correção em sites colaborativos. Erros na WikipédiaAlém disso, e sobretudo, o "Erramos" normalmente ocupa um espaço de baixíssima visibilidade. As correções deslocadas e atrasadas acabam descontextualizadas, com baixo poder informacional.

Por outro lado, em sites colaborativos da Web 2.0 os erros podem ser corrigidos in loco. Na Wikipédia, por exemplo, e no WikiNews (no caso do webjornalismo participativo) um leitor que identifica o problema pode fazer a correção instantaneamente.

Em 2004, a IBM fez um estudo sobre a Wikipédia e encontrou um dado impressionante: erros são corrigidos em 5 minutos, na média. Mas, como se sabe, a maior parte dessas correções é feita por um pequeno grupo de voluntários que se dispõe a acompanhar cada edição de certos verbetes. Veja o que diz Jimmy Wales, o criador da enciclopédia livre:

the vast majority of changes on Wikipedia are made from a hard-core group of users. It's not a Darwinian phenomenon of millions of people, but rather a community of people. That core group is in constant communication, via IRC, and on the Web itself - they're always talking, in 40 languages, about the articles. That's how the site gets corrected so fast. People notice the change and very quickly communicate it through the community. The tight-knit group of users makes all the difference.

Ou seja, existe um pequeno grupo de pessoas com status de administrador. Esta autoridade diferenciada mina a idéia de relação de poder horizontal. Trata-se, no entanto, de um processo que busca garantir a credibilidade da produção colaborativa. InterrogaçãoNo contexto do webjornalismo participativo, mais especificamente no que toca o gatewatching (ver o artigo de Primo e Träsel citado anteriormente), prática semelhante ocorre no Digg, conforme relata a Slate. Esta revista online ainda aponta que 1% dos colaboradores da Wikipédia produzem metade de seu conteúdo. Os dados da Wikipédia, claro, não podem ser generalizados para qualquer site colaborativo. Nem mesmo para o WikiNews, cujo desenvolvimento é decepcionante.

De qualquer forma, a discussão sobre a urgência na correção de erros na mídia tradicional ou online precisa estar sempre em pauta. Disso depende a credibilidade de qualquer meio. Ou estou errado?


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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Darceley · http://darceley.blogspot.com/

Tens razão, depende sim.
Afinal, antes tarde corrigir o erro do que nunca.

Alex, o Estadão ainda não reconheceu o erro?


PermalinkPermalink 03.03.08 @ 15:02



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com


Reconheceu sim…um mês depois: http://alexprimo.com/2007/09/20/parabens-estadao/


Os outros meios na Web, contudo, reconheceram o erro da divulgação da falsa notícia nos dias seguintes.


PermalinkPermalink 03.03.08 @ 15:10



Comentário de: L@uR!nh@ · http://laurastorch.wordpress.com

Essa é uma questão e tanto. Envolve não só a velocidade de publicação como também uma questão crucial na Rede: adaptabilidade. Na verdade, quanto mais os webjornais se abrem para as intervenções do público, mais e mais estão sujeitas à indicações de erros diretamente nos conteúdos das notícias. E isso não é ruim. Desde que seja reconhecido e corrigido. Ainda assim, não sei se uma seção "Erramos" é o local mais indicado - talvez seja muito útil se não for a única alternativa… Mas o local de registro do erro deve ser a própria matéria (ou algum link nela que indique o conteúdo modificado!). Ela vai continuar sendo vista, mesmo depois de "esgotada" a discussão que gerou… Mesmo que o erro não esteja mais lá, os comentários - nos casos em que eles existem - constituem um registro tanto do envolvimento do leitor para com o jornal como o contrário, do jornal para com o leitor… <img src="/blogs/rsc/smilies/graybigrazz.gif" alt=":P" />


PermalinkPermalink 03.03.08 @ 21:16



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Pois é, Laura. Fiquei agora pensando que seria interessante publicar cada "erramos" em local próximo ao da publicação original. Assim, teríamos vários "erramos" em vários pontos do jornal.


Certamente alguém já pensou nisso. Será que alguém aqui conhece alguma experiência nesse sentido?


PermalinkPermalink 04.03.08 @ 08:53



Comentário de: Vivian Belochio

Iniciativas que demonstram a utilização das potencialidades da web 2.0 na busca da exatidão - à qual Philip Meyer se refere no livro "Os jornais podem desaparecer?", destacando a perda da credibilidade em decorrência de erros cometidos pelos veículos jornalísticos - estão se tornando mais intensas, embora ainda de maneira tímida. No webjornal Zero Hora.com, por exemplo, é disponibilizado um espaço para o encaminhamento de correções pelos interagentes. Apesar de as contribuições enviadas passarem por uma análise prévia antes da publicação, é interessante a forma como alguns materiais são utilizados. Um caso interessante pode ser conferido por intermédio do link http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=%20Ge%20ral&newsID=a1677020.xml. Quando a correção é considerada pertinente é adicionada na matéria em seu parágrafo inicial, em vermelho. É uma maneira bem aberta de realizar correções.


PermalinkPermalink 04.03.08 @ 15:07



Comentário de: Vivian Belochio

Peço desculpas, o link está incorreto. O título da matéria, para quem se interessar em buscar no site Zero Hora.com, é "PF recolhe documentos e bens de empresa dos Sarkis". Mais uma vez tento anexar o link: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=%20Ge%20ral&newsID=a1677020.xml


PermalinkPermalink 04.03.08 @ 15:15



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Vivian, agora o link funcionou. Obrigado pela sugestão!


PermalinkPermalink 04.03.08 @ 17:26



Comentário de: Carlos d’Andréa · http://novasm.blogspot.com

Grande post, Alex. Recomendo um outro artigo sobre o tema: Assessing the value of cooperation in Wikipedia, publicado na First Monday. Entre outros dados, afirma que à epoca os 6,4 milhões de artigos publicados em todas as línguas e dialetos já tinha sido modificados por 5,77 milhões de colaboradores, totalizando 236 milhões de edições. Impressionante…


PermalinkPermalink 11.03.08 @ 12:03



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Obrigado, Carlos. Realmente o tema ainda vai nos desafiar por muito tempo. Que bom!


PermalinkPermalink 11.03.08 @ 15:26



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