2008
Na coluna do ombudsman da Folha deste domingo, Mário Magalhães segue discutindo a velocidade com que erros do jornal são corrigidos. Segundo noticiou no dia 10 de fevereiro, "Do dia em que saiu o erro até a correção, a média é de 7,34 dias [balanço de 2007]". A jornalista Suzana Singer, secretária de redação da Folha, reagiu lembrando que 54,55% das correções em 2007 (mais da metade, portanto) foram publicadas em até 3 dias.
Veja agora os outros resultados do tempo de divulgação do "Erramos" na Folha:

- 4 a 6 dias - 15,30%
- 7 a 10 dias - 10,86%
- 11 a 20 dias - 9,57%
- 21 a 30 dias - 5,43%
- acima de 30 dias - 4,28%
Diante do protesto de Suzana, o ombudsman reconhece que nenhuma publicação brasileira retifica seus erros como a Folha. Ele deve ter razão. "A seção 'Erramos' fornida não é sinal de fragilidade, mas de pujança. Todos erram, só alguns corrigem".
Isso me fazer recordar um fato vergonhoso que denunciei em 2007. Mesmo que toda a imprensa tenha reconhecido a divulgação internacional de uma pegadinha jornalística, o jornal Estadão preferiu ignorar o erro e não retratar-se, até que passou a ser motivo de chacota na blogosfera. Lembra disso?
Voltando ao levantamento da Folha, Magalhães insiste que a média precisa ser baixada. "Em quatro anos de tabulação, a espera média começou em sete dias e assim permanece, sem avanço algum".
A seção 'Erramos", que qualquer jornal de respeito precisa manter, é um dos principais alvos dos defensores do webjornalismo participativo (veja uma introdução ao tema neste artigo que escrevi com Marcelo Träsel). Devido à pressão do tempo na rotinas jornalísticas diárias e o processo de impressão e distribuição de periódicos impressos, a publicação de erratas leva muito mais tempo que a correção em sites colaborativos.
Além disso, e sobretudo, o "Erramos" normalmente ocupa um espaço de baixíssima visibilidade. As correções deslocadas e atrasadas acabam descontextualizadas, com baixo poder informacional.
Por outro lado, em sites colaborativos da Web 2.0 os erros podem ser corrigidos in loco. Na Wikipédia, por exemplo, e no WikiNews (no caso do webjornalismo participativo) um leitor que identifica o problema pode fazer a correção instantaneamente.
Em 2004, a IBM fez um estudo sobre a Wikipédia e encontrou um dado impressionante: erros são corrigidos em 5 minutos, na média. Mas, como se sabe, a maior parte dessas correções é feita por um pequeno grupo de voluntários que se dispõe a acompanhar cada edição de certos verbetes. Veja o que diz Jimmy Wales, o criador da enciclopédia livre:
the vast majority of changes on Wikipedia are made from a hard-core group of users. It's not a Darwinian phenomenon of millions of people, but rather a community of people. That core group is in constant communication, via IRC, and on the Web itself - they're always talking, in 40 languages, about the articles. That's how the site gets corrected so fast. People notice the change and very quickly communicate it through the community. The tight-knit group of users makes all the difference.
Ou seja, existe um pequeno grupo de pessoas com status de administrador. Esta autoridade diferenciada mina a idéia de relação de poder horizontal. Trata-se, no entanto, de um processo que busca garantir a credibilidade da produção colaborativa.
No contexto do webjornalismo participativo, mais especificamente no que toca o gatewatching (ver o artigo de Primo e Träsel citado anteriormente), prática semelhante ocorre no Digg, conforme relata a Slate. Esta revista online ainda aponta que 1% dos colaboradores da Wikipédia produzem metade de seu conteúdo. Os dados da Wikipédia, claro, não podem ser generalizados para qualquer site colaborativo. Nem mesmo para o WikiNews, cujo desenvolvimento é decepcionante.
De qualquer forma, a discussão sobre a urgência na correção de erros na mídia tradicional ou online precisa estar sempre em pauta. Disso depende a credibilidade de qualquer meio. Ou estou errado?




