Gerador de poesias dadaístas

23Out
2007

Depois de publicar minha "Fantástica Coleção de Geradores de Texto", lembrei que eu mesmo tinha produzido anos atrás alguns geradores de texto. O primeiro traz uma versão digital da receita de poesia dadaísta do Tristan Tzara, que produzi juntamente com Camila Gonzatto em 1999. Para visualizar o projeto, clique na imagem abaixo (você precisará instalar o plug-in Shockwave, que era popular na época. A instalação é muito rápida!).

Tela inicial do antimecanismo

Leia abaixo o texto que escrevi na época sobre este projeto experimental, que visava criticar a navegação determinística do que chamo de hipertextos potenciais:

A tela inicial do "Antimecanismo" apresenta um inusitado readymade. No dadaísmo, essas peças tinham o intuito de dessacralizar os conceitos de arte e artista, expondo objetos do dia-a-dia como esculturas. Os antimecanismos eram máquinas produzidas com o único objetivo de desconcertar e provocar o público. A combinação de um cabide comum de lavanderia com um vulgar mata-moscas (foto e escultura produzidas especialmente para este hipertexto) põe em conflito duas situações contraditórias do movimento: o dinâmico (o mata-moscas) e o estático (o cabide).

A escolha do título é uma brincadeira com este hipertexto que tem por trás um código fechado que potencializa o funcionamento correto do produto. Por outro lado, apesar da estrutura determinística do código, o conteúdo gerado não é nada fechado. Constitui-se então em um mecanismo que não serve para a produção de nenhum texto específico. Mesmo os links no interior de cada texto não levam para nenhum lugar que o leitor/autor planejasse, deixando-o em uma construção aleatória.

Alguém poderia argumentar que trata-se de um mecanismo para geração de textos inúteis. Um mecanismo de geração de textos que não serve para nada. Finalmente, poderia-se também dizer que o título está dentro da perspectiva dadaísta, no sentido de não ter um comprometimento em dizer qualquer coisa ou explicar a obra.

Uma das motivações que conduziu à produção deste hipertexto foi o fato de que os links apresentados em sites na Web são normalmente fruto de uma programação estreita que conduz sempre a um mesmo destino, tantas vezes o link ou botão forem clicados. Nesse sentido, e inspirado pelo anarquismo dadá, programou-se uma peça em que os links (com exceção de alguns poucos) despertam sempre resultados aleatórios e imprevisíveis. Portanto, trata-se de um hipertexto onde a relação entre cada palavra-âncora não está rigidamente determinada.

Entretanto, por trás de "Antimecanismo", mais do que uma obra dadaísta informatizada e que permite a interação de pessoas navegando na Web, há a intenção de por em discussão a questão da seqüencialidade textual. Em muitas discussões emerge uma distinção entre texto impresso seqüencial e hipertexto informático não-sequencial. Será fiel essa dicotomia?

Tristan TzaraA poesia dadaísta, na radicalidade sugerida pela receita de Tzara, toma um texto impresso e estilhaça seu ordenamento. Cada palavra torna-se um fragmento dissociado das outras palavras que compunham a mesma página. Mas, para não dizer que este pequeno pedaço de papel rasgado já não tem nenhum traço de sequencialidade, poderia-se sugerir que no interior da palavra ainda existe uma seqüência de letras que constituem a palavra e seu reconhecimento (mesmo que falte alguma letra ou contenha algum erro de redação).

Ao serem colocadas todas as palavras recortadas em um saco, os fragmentos serão mais uma vez reaproximados, mas em um novo ordenamento e em diferentes planos. Ao ser agitado o saco, as proximidades e afastamentos entre cada pedaço do texto original serão alteradas randomicamente. Poderia, paradoxalmente, dizer-se que no interior do saco em agitação as palavras não teriam nenhuma ordem entre si, ou, pelo contrário, contra-argumentar-se que estariam compondo breves seqüencialidades que logo dão lugar a outras enquanto o saco é agitado.

Ao serem dispostas na tela, as palavras sorteadas serão posicionadas com alguma relação espacial entre elas. Como foram ordenadas aleatoriamente, o leitor pode ler cada uma na ordem e direção que desejar: de cima para baixo, em diagonal, etc. Porém, mesmo que faça a leitura de forma não-convencional ele não imprime uma certa seqüência em sua leitura? Logo, poderia se falar em não-linearidade ou seria melhor pensar em multi-seqüencialidade? Uma coisa é tratar de ausência de qualquer seqüência, outra é supor diversos ordenamentos possíveis.

Finalmente, por detrás do sorteio aleatório das palavras também existe uma programação fechada. Um dos momentos de maior trabalho na produção deste hipertexto localizou-se nessa fase. Queríamos potencializar o caráter não-previsível dessa poesia. Para tanto, foi necessário a redação de várias linhas de código fechado que assegurassem o sorteio dentro dos limites planejados.

Mesmo que as palavras pareçam estarem impressas sobre os pequenos papéis rasgados, tratam-se na verdade de elementos diferentes. Queríamos que em cada sorteio uma palavra não aparecesse sobre o mesmo papel. Assim, palavras e papéis são sorteados em separado e sobrepostos visualmente. Precisou-se também fazer uso do recurso de "listas" para se evitar que um mesmo papel ou palavra aparecessem duas vezes na interface (pois o sorteio informático comum não evita isso).

Portanto, mesmo por detrás de todo movimento do aleatório, existe uma programação em um sistema fechado, guiado por um planejamento prévio e determinístico que viabiliza certas ações e proíbe outras. Logo, com este hipertexto, pretendeu-se oferecer uma interface que pudesse servir para a discussão de questões como não-linearidade, imprevisibilidade, leitura e autoria, etc.


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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

Ups, o Antimecanismo foi produzido em 1999, e não em 2004 como eu havia escrito antes.


PermalinkPermalink 23.10.07 @ 22:29



Comentário de: Sandra Bordini Mazzocato · http://www.papple.org


Só depois de escrever todo aquele post que tu lembra desse teu projeto?


Pôxa Alex, o velho Al tá te pegando, ou é a idade mesmo?


rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs


PermalinkPermalink 24.10.07 @ 09:22



Comentário de: alexprimo · http://alexprimo.com

hehehe, e tem mais 2 outros geradores que criei que eu ainda não citei, Sandra!


PermalinkPermalink 24.10.07 @ 09:45



Comentário de: Gisele Francislleyne Karyn · http://giseleh.com

Putz, não convidei o orientador… e agora?
Perderei qtos pontos?

Só pra esclarecer: combinamos correndo no meio da manhã e eu nem sei o número do celular… ficou faltando um monte de gente.

Fiquei me sentindo culpada agora… :-(


PermalinkPermalink 24.10.07 @ 21:36



Comentário de: Sandra Bordini Mazzocato · http://www.papple.org

Não me venha com desculpinhas (hihihihi…já to abusando, eu sei).


Gisele Francislleyne Karyn, conte-nos o que te fez mudar de identidade?


PermalinkPermalink 25.10.07 @ 11:57



Comentário de: Carmencita Mahadevi · http://geleiairreal.wordpress.com

Adorei o seu nome completo, Gi.

E que bom saber que você gosta de poesia. Outro dia escrevi uma linda:
http://geleiairreal.wordpress.com/2007/09/28/sentenca-oracao/

Um grande beijinho!


PermalinkPermalink 25.10.07 @ 20:10



Comentário de: Fabricio · http://www.fcraft.com.br/cafe

Olá,
adorei o Antimecanismo… tem mesmo tudo a ver com o movimento Dadaísta e apesar de shockwave, funcionou muito bem aqui.
Gostaria de saber se você autorizaria eu colocar esse texto e um link para o Antimecanismo num espaço(blog) que tenho chamado Café Fcraft(cafe.fcraft.com.br), que fala de arte, musica, literatura, etc.

Obrigado,
abraço,
Fabrício Alves


PermalinkPermalink 23.11.07 @ 23:32



Comentário de: Gabii

Gostariia de sabe rum poema sobre o dadaísmoo !!


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[...] realmente inovar, mantendo o estilo formal das edições daquela época e buscando inspiração na poesia dadaísta, (o Dadaísmo era o movimento artístico desse período) quebrou a seriedade do [...]


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