2007

Você pode confiar em tudo o que lê no jornal Estadão? Segundo a campanha publicitária desse veículo, é preciso abandonar a leitura de blogs e buscar informações de credibilidade no tal jornal. É isso mesmo? Vejamos…
Neste domingo, o site Link, do Estadão, publicou uma matéria sobre blogs para a qual eu fui entrevistado. A jornalista que me ligou pediu que eu opinasse sobre a lucratividade em blogs. Apesar de eu afirmar que o lucro não é o principal compromisso da maior parte dos blogueiros, ela insistia que eles só querem ganhar dinheiro. Como prova, ela relatou que no encontro Blogcamp esse foi o assunto dominante. Diante disso, lembrei que é preciso tomar cuidado com generalizações e citei o seguinte exemplo. Se formos para a frente da bolsa de valores e perguntarmos para algumas pessoas que saem do prédio se elas investem em ações, poderíamos generalizar que os brasileiros estão todos no mercado de capitais?
Eu não conheço muitos blogueiros independentes (aqueles que não estão vinculados a uma instituição midiática) que se sustentam apenas com seus blogs. Lembrei a ela que nos Estados Unidos existe um número razoável de pessoas que usam blogs como fonte de renda. Porém, tanto aqui como lá a imensa maioria não tem esse objetivo. Segundo as pesquisas que leio e conduzo, a maior fatia dos blogueiros mantém esse novo meio digital como forma de expressão e interação com suas micro-audiências. De fato, muitos blogs hoje trazem Google Ads. Ora, é muito fácil incluí-los na página e nenhum esforço é necessário para a sua manutenção na interface. Essa prática, contudo, não confirma que o lucro é o único ou principal objetivo de todo e qualquer blogueiro. Se o anúncio render algo, ótimo! Mesmo assim, o retorno financeiro é minúsculo e demora muito para vir.
Para viver de blog é preciso muito comprometimento e visão. É assim que Edney Souza, do interney.net, se notabiliza na blogosfera brasileira. Mas Edney é uma pequena exceção. A maior parte dos blogs, quase sua totalidade, é mantida com outras finalidades. E como o custo de manutenção do serviço é muito baixo ou nulo, a continuidade de um blog é motivada principalmente pela interação mantida nesses espaços sociais. Em outras palavras, poucos, muito poucos são aqueles que utilizam ou querem utilizar o blog como profissão.
Mas, claro, essa percepção não está de acordo com os interesses do jornal Estadinho. Vejam como começa a matéria "Qual o papel dos blogs no Brasil?", publicada no Link:

Além de comparar os blogueiros a macacos, o Estadinho agora dá a entender que eles não passam de vendidos. A decisão de começar a matéria de tal forma constitui claramente um novo ataque à blogosfera. Já o pseudo-debate promovido pelo Estadinho, apesar de iniciar com a frase "Nós amamos blogs", foi uma encenação, repleta de ironias.
Claro, o Estadinho deve ser o único jornal e o Link o único site que não publicam "matéria 500″ (aquelas de interesse da instituição), cujos jornalistas descobriram o baú da verdade e cujos anunciantes não exercem qualquer pressão. Mas vejam abaixo a notícia publicada no dia 10 de agosto pelo Estadinho, que se diz ser um exemplo de credibilidade:

A notícia não passa de uma falsa informação. O portal Terra também a publicou, mas logo se retratou (veja mais sobre o tema aqui). O Estadinho, contudo, não publicou nenhum update ou um "erramos" na página. Onde está a verificação da notícia? Ou os jornalistas do Estadão também gostam de um bom copy/paste?
Certamente o título deste post é uma provocação. Nenhum jornalista é imune a erros. Mas, pelo tom da campanha do Estadinho, eles poderiam dar melhor exemplo. Enquanto isso, nós blogueiros vamos ficar de olho!
Veja a notícia no site do Estadinho e vamos cuidar para ver se um update é finalmente incluído: http://www.estadao.com.br/tecnologia/not_tec32611,0.htm




