Por Gilberto Consoni
Redator
Os Trending Topics Brasil (TTbr) foram marcados, desde a última quarta-feira, por hashtags originadas no Debate Folha/UOL. Enquanto os três candidatos que lideram as pesquisas trocavam questionamentos, os internautas postavam mensagens no Twitter, Facebook, salas de bate-papo do UOL e em um dos canais disponibilizados pelo portal no USTREAM. Mas quais diferenças podemos observar do debate online ocorrido no portal UOL de um canal de TV?
O debate político é uma ferramenta utilizada pelos meios de comunicação para apresentar a desenvoltura dos candidatos frente a temas polêmicos, visto que as perguntas partem dos próprios concorrentes. O modelo é principalmente utilizado pela TV e é criticado por se tratar mais de um espetáculo midiático em busca de audiência do que um instrumento democrático. Mas como será que podemos avaliar o debate online da Folha/UOL na web, já que a Internet oferece características interativas que os meios anteriores não permitiam com a mesma potencialidade?
Ao acompanhar o debate, observei que o UOL utilizou o mesmo modelo com uma roupa nova e que a única característica da web como meio de comunicação aproveitada foi a do tempo, já que a estrutura das perguntas e respostas seguiu a mesma lógica da TV. Os candidatos possuíam um tempo determinado para fazer as perguntas e outro também muito específico para as respostas. A vantagem na web foi que os blocos do debate foram maiores que normalmente são na TV, pois o tempo não ocupava o restante da “programação” do UOL. Enquanto a TV oferece apenas um canal de comunicação por vez, o portal na Internet oferece diferentes conteúdos para os internautas ao mesmo tempo.
A característica da Internet que é mais comentada nesses programas é a da Interatividade. O editor de mídias sociais da Folha, Marcos Strecker, afirma em notícia do site Comunique-se que o modelo proposto pelo UOL gerou mensagens nas mídias sociais que “mostram uma nova forma das pessoas reagirem ao debate e se relacionarem com os candidatos”. A afirmação do editor é bem verdade, mas ele falha quando diz que “os próximos debates televisivos vão precisar repensar suas regras, pelo impacto que esse formato causou”. O modelo do UOL seguiu o mesmo da TV e a possibilidade dos internautas postarem mensagens enquanto acompanham uma programação já foi observada em outros episódios, como a Copa do Mundo ou a entrevista dos presidenciáveis ao Jornal Nacional. Esse fenômeno interativo não foi exclusivo do formato online apresentado pelo UOL. Os internautas poderiam estar com a TV ligada e mesmo assim postarem suas mensagens no Twitter ou participarem de uma sala de bate-papo do próprio UOL.
O editor do UOL disse que “um diferencial importantíssimo” do formato apresentado pelo UOL foi a abertura de perguntas para os internautas que puderam gravar e enviar seus questionamentos aos candidatos. Mas esse formato também não é exclusivo do UOL ou da Internet, já que a própria TV além de possibilitar que os eleitores fizessem suas perguntas fez com que elas fosse ao vivo, com a presença do candidato e eleitor. Lembrem-se de um debate feito pela Rede Globo em que vários eleitores foram sorteados para comporem a platéia no programo ao vivo. A lógica de sorteio ou seleção das perguntas dos eleitores foi a mesma utilizada pela TV, a escolha daqueles temas que os próprios jornalistas e editores do UOL julgavam ser de maior relevância para a população brasileira.
O UOL poderia inovar nesse ponto, caso a seleção das perguntas fosse feita pelos próprios internautas. Os interessados em questionar poderiam enviar suas perguntas até alguns dias antes do debate e o UOL disponibilizá-las por temas para que os próprios internautas votassem nas perguntas que eles gostariam que fossem feitas. Neste simples exemplo, poderíamos ver uma inovação no debate online, pois os eleitores que fariam os questionamentos não seriam sorteados ou selecionados por uma equipe jornalística, mas a escolha partiria do próprio eleitorado.
A questão da interação também poderia ser melhor aproveitada e realmente inovada, já que vimos que o formato não se diferenciou da TV. Quando se trata de um tema que atinge um elevado número de pessoas como no caso das eleições, é difícil pensar um sistema em que os internautas realmente conversem. Muitas pessoas envolvidas em uma interação no mesmo ambiente, como ocorreu na transmissão pelo USTREAM, faz com que todos falem e ninguém se escute.
O que o UOL poderia fazer para inovar nesse sentido e ir além das mensagens postadas no Twitter como qualquer canal de TV pode oferecer, seria criar salas de bate-papo com participantes limitados que tratariam de temas específicos. Desse modo, o UOL poderia oferecer realmente um ambiente em que os Internautas que acompanhavam o debate poderiam discutir sobre os candidatos e falarem dos temas que mais lhe interessam, como educação, segurança, saúde, etc.
O UOL utilizou o mesmo modelo anterior e a reação dos internautas foi a mesma de quando acompanham debates na TV. Alguns defenderão ainda que o UOL permite que o debate continue mesmo quando encerrado, mas isso não é exclusivo da Internet, pois quando os debates na TV terminam, as pessoas continuam debatendo nas ruas e mesmo na Internet. Certamente há características interativas na web que podem ser aproveitadas para inovar o debate político, mas ainda não foi este modelo que o Debate Folha/UOL ofereceu que inovou.
Espero que os meios deixem de pensar a web como TV, como meio de massa, já que pelas notícias que li a respeito deste debate, o número de internautas envolvidos era sempre destacado. Mas mesmo nesse ponto não poderíamos comemorar, já que somente 1,4 milhões de acessos foram registrados. O número é insignificante quando comparamos com um canal de TV, mas aí é que está o cerne da discussão. Não nos interessa o número como em meios de massa, mas como dois simples internautas envolvidos na discussão interagem. Com isso, talvez, não precisemos mais acompanhar apenas as inúmeras mensagens em ambientes como o Twitter que de um lado falam CALA BOCA DILMA ou Serra Comedor.
Os internautas que ainda não assistiram o debate podem ver a íntegra no site do UOL, ou pedir para um amigo que gravou em VHS...
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por Mariana Oliveira
Redatora
Além das coisas positivas que todos sabemos que a internet nos proporcionou, como acesso à informação, poder para os consumidores, democratização dos meios de produção, entre tantas outras "maravilhas" que lemos por aí, é preciso considerar também os novos problemas que a web criou – ou, pelo menos, intensificou. É aí que se enquadra a tendência de overload: informação em grande quantidade, angústia por saber que não vamos conseguir ler tudo, tweets, feeds, artigos, comentários… sempre fica a sensação que em algum blog do mundo tem algo interessantíssimo esperando pela sua leitura.
Essa ansiedade de informação não é característica exclusiva da web: desde que começamos a registrar as histórias - seja em papiro, livros ou e-books, o volume de dados ultrapassou as nossas capacidades cognitivas para “conhecer tudo”. Aí entram os curadores de conteúdo, os críticos, os jornalistas, a imprensa: pessoas que “selecionam”, dentre esse montante, as informações mais relevantes e aplicáveis na nossa realidade. Se este modelo funciona bem ou não é outra questão a ser debatida, mas o fato é que a internet provocou uma ruptura nesse modelo de curadoria e seleção. Com as facilidades da internet, qualquer pessoa pode ignorar este conteúdo “selecionado” e partir para suas próprias fontes de informação alternativas – inclusive, se tornando a fonte de informação para outros.

Já existem muitas publicações que investigam esse overload, e como isto está afetando o nosso cérebro e as tais capacidades cognitivas. Há quem faça previsões apocalípticas para esse excesso de conteúdo, assim como quem exalte essa nova era de conhecimento abundante e compartilhado. Neste fogo cruzado conheci através deste post uma tendência chamada Serendipismo. Aplicada à web, seria algo como uma contratendência que “se joga” neste mar de informação, em vez de tentar controlá-lo. Ahn?
Para explicar melhor: a palavra Serendipismo, do inglês Serendipity, significa “descobertas ao acaso”, e é um neologismo criado a partir de um conto infantil persa. Em Os Três Príncipes de Sarandip, os protagonistas viviam fazendo descobertas inesperadas durante seu caminho. Dotados de grande sagacidade e com a mente aberta para as múltiplas possibilidades, os príncipes acabavam encontrando “acidentalmente” soluções para seus dilemas, o que os tornava muito importantes perante o reino.
O Serendipismo é uma forma especial de criatividade, em que saímos em busca de uma coisa e acabamos encontrando outras muito mais importantes e valiosas. A ciência está repleta de casos famosos que podem ser classificados como serendipismo, mas estes só ocorrem quando estamos “abertos” a estas descobertas, preparados e com o senso de observação apurado. Está aí a associação máxima com a navegação hiperlinkada na web, em que começamos por googlar uma coisa e acabamos mergulhados em um assunto mais interessante e completamente diferente do planejado inicialmente.
E o que isso tem a ver com o excesso de informação do início deste post? A questão é que se tentarmos controlar essa avalanche de dados, seja com ferramentas como agregadores de feeds, listas, sistemas de recomendações, ou até mesmo com uma “desintoxicação”, podemos perder grandes oportunidades de descobrir outros mundos e, bingo!, lá estava a solução para o nosso dilema. É um risco que se corre. Uma tentativa de vida digital organizadinha, em que você lê os mesmos sites, segue as mesmas pessoas no Twitter e acompanha só os assuntos relacionados à sua área definitivamente não combina com o serendipismo, em que “estar disponível a encontrar coisas que você nem sabia que existia” é um fator fundamental para acessar o que não é alardeado pela mídia, mas que pode ser essencial para o seu projeto - e, desses encontros inesperados, pode emergir a tão almejada inovação.
Moral da história: o volume desenfreado de conteúdo pode provocar novas descobertas e/ou muita dor de cabeça. Basta escolher (ou descobrir?) como aproveitar este caos informacional da melhor maneira possível. :)
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Por Gilberto Consoni
Redator
Ao longo da semana, após o erro cometido pela candidata Dilma ao se referir à Baixada Santista e outras imprecisões na entrevista ao Jornal Nacional, observamos o hashtag CALA BOCA DILMA figurar nos Trending Topics Brasil (TTbr). Em entrevista ao portal Terra, o coordenador da campanha para web da candidata, Marcelo Branco disse que: “O ‘Cala Boca, Dilma’ é uma fraude”. O coordenador afirma em sua página no Twitter que a campanha é “feita c fakes, scripts e robôs”.
Marcelo Branco diz na mesma entrevista ao Terra que a campanha de Dilma não irá se pronunciar. “Não vamos fazer nenhuma resposta, pois nossa campanha é propositiva e está baseada em comentários positivos sobre a nossa candidata”. Particularmente acho que os comentários negativos devem ser trabalhados com afinco, já que são esses que precisam mudar para se ganhar votos.
Essa atitude da campanha de não se manifestar pode ser apenas uma estratégia para não dar ainda mais atenção ao fato, mas certamente devem olhar atentamente para o acontecimento, já que o CALA BOCA DILMA não é promovido por fakes e scripts como afirma Branco. Ainda que eles possam existir, qualquer pessoa que passar os olhos nos TTbr observará que são diversos os internautas que se engajaram na manifestação.
Mas será que esses internautas foram motivados e influenciados pela manifestação no Twitter ou apenas despertaram na web a sua posição política que já estava bem definida?
O que observo desde o início da campanha na web é que a maioria das mensagens reforçam a posição política que os internautas já manifestavam no presencial. São raras as mensagens no virtual cujos produtores estejam abertos ao diálogo. Vejo a maioria delas extremamente a favor ou contra.
Certamente o episódio Cala Boca Dilma atinge a imagem da candidata. Mas aqueles que analisarem atentamente o conteúdo dos tuítes que se engajam a favor ou contra nessa manifestação observarão que ele está repleto de manifestações radicais de eleitores bem definidos. Alguém poderia até defender que a manifestação no Twitter não muda nada, já que os envolvidos apenas defendem ao extremo seus candidatos e que o diálogo, que realmente poderia mudar alguma coisa, não ocorre entre os internautas.
Por outro lado, a projeção dessa campanha no Twitter fortalece a militância dos outros candidatos que despertam com mais subsídios para atacar a candidata que lidera nas pesquisas. Além disso, esse fenômeno no Twitter pode migrar para outros meios como já ocorreu em casos anteriores. O próprio Cala Boca Galvão é um ótimo exemplo disso, o que originou o protesto UmDiaSemGlobo.
A web e o Twitter não podem ser vistos como meios de massa, mas como ambientes que podem privilegiar informações mais direcionadas com grandes possibilidades de diálogo. Infelizmente, vejo que mais uma vez os internautas falham neste aspecto, já que não aproveitam o espaço para discussão e continuam com brigas acirradas e argumentos radicais muitas vezes sem fundamento.
Espero que até o dia das eleições o comportamento na web mude e que eu possa aproveitar o debate público em meios como o Twitter para definir meus candidatos. Do contrário, só poderei afirmar que no Twitter, como no Brasil, tudo acaba em pizza e futebol.
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Por Gilberto Consoni
Redator
Há alguns dias, depois de acompanhar um debate sobre sites de redes sociais entre alguns tuiteiros, passei a observar à importância do uso do botão reply no Twitter para a organização da conversação e para a manutenção da adjacência dos turnos para aqueles que acompanham a conversa de terceiros, mas que não participam ativamente dela.
Os primeiros pesquisadores da análise da conversação organizaram as conversas partindo da premissa de que elas se dispõem em perguntas e respostas (Sacks, Schegloff & Jefferson). Cada parte é um turno, a pergunta é a primeira parte do turno e a resposta a segunda parte e, para que haja conversação, é necessária adjacência entre as partes dos turnos. Dessa forma os turnos adjacentes são formados de par em par e surgem as sequências conversacionais. Em vez de perguntas, em minhas dissertação analisei as conversas dispostas como declarações e respostas (Goffman), já que um turno pode oferecer adjacência a outro a partir de um locutor que não faz uma pergunta direta.
No Twitter podemos considerar que muitos replies são gerados a partir de declarações anteriores que não, necessariamente, foram perguntas diretas. Normalmente, as conversas surgem neste ambiente a partir de turnos desse tipo, já que muitas vezes as tuitadas de uns instigam outros a responder e dar continuidade na conversação.
As conversas públicas entre dois ou mais tuiteiros nem sempre são bem vistas, tanto que alguns criticam e chegam a dizer que os envolvidos deveriam usar as DMs (Direct Message). Certamente pode aparecer nas timelines as conversas de seguidos nossos que de nada nos interessam, mas há muitos debates que acompanhamos e que nem sempre participamos ativamente que julgamos interessantes. Pensem no potencial do Twitter para um debate entre políticos e eleitores.

O debate público é um dos potenciais do Twitter dos mais importantes que observo, mas que ainda é pouco utilizado, até mesmo porque é difícil se acompanhar uma conversação quando há mais do que dois tuiteiros envolvidos, principalmente, quando não seguimos todos eles. Outro agravante é o fato de não sabermos o momento em que a conversa inicia. A recuperação dos turnos da conversação é dificultada quando não se usa o botão reply
Quando se dá reply a um tuite, ele só aparecerá na timeline de nossos seguidores se eles seguirem as duas partes envolvidas na conversa. A solução para isto é simples, basta se colocar um ponto à frente do @ para que o nosso reply apareça para todos os nossos seguidores (.@fulanodetal).
Na semana passada acompanhei a conversa entre @MissMoura, @raquelrecuero e o editor deste blog, @alexprimo. Os três discutiam se alguns sites de relacionamentos que usamos podem ser considerados Redes Sociais. Neste post não me interessa discutir esse tema, mas analisar a conversação deles.
Aparentemente, a conversa foi originada a partir da declaração de @MissMoura que divulgava uma pesquisa da Nielsen sobre usuários de redes sociais no Brasil. A partir daí, @alexprimo passa a fazer questionamentos a @MissMoura do link da pesquisa e, depois, passa a questionar @raquelrecuero sobre o tema também. Ele não usa mais o botão reply em todas as suas respostas e o sistema não consegue organizar os turnos em sequências para que outros acompanhem a conversa.
Certamente, aqueles que como eu estavam online no momento e recebiam em suas timelines os tuites deles podiam acompanhar perfeitamente o debate, mas quem chegou depois de iniciada a conversação ou que não segue os três perdeu a sequência dos turnos. A própria @raquelrecuero publica um tuite mais tarde explicando que havia esquecido de usar o ponto à frente dos @s e que aqueles que desejassem acompanhar a discussão poderiam ver em sua timeline, mas realmente fica muito trabalhoso e torna a prática quase que indesejável organizar a conversa. Como nem todos estão interessados em analisar a conversação turno a turno como é meu interesse de pesquisa, certamente deixarão o debate passar.
O uso do botão reply resolve o problema para as conversas entre dois interagentes, como pode ser observado na figura que mostra alguns turnos da conversa entre @raquelrecuero e @alexprimo, mas a @MissMoura que também faz parte dessa conversa não aparece sempre. Nesse ponto o Twitter precisa evoluir para organizar melhor as conversas, pois assim poderíamos acompanhar os debates públicos de forma mais fácil.
Nesta semana, foi anunciado o fim do serviço Google Wave. O sistema permitia acompanhar as conversas de forma mais eficiente do que o Twitter, mas ainda era muito complicado se compreender o seu funcionamento que, somado ao elevado número de bugs, afastou os internautas e fez com que a Google descontinuasse o mesmo.
O Twitter poderia utilizar algumas das tecnologias que existem no Wave para organizar melhor as conversas entre mais do que dois tuiteiro, pois muitas vezes estamos interessados nas discussões daqueles que seguimos. Imaginem este debate entre os três tuiteiros citados acima para alunos que pesquisam redes socias na internet? As conversas entre os outros não devem ser vistas como flood em nossas timelines, mas como a abertura de conversas para o público que antes ocorriam em sua maioria exclusivamente no ambiente privado, mas para isso é necessário se ter melhores instrumentos para a organização da conversação. Enquanto isso, usem o botão reply e lembre de colocar ponto à frente do @ quando desejam que seus seguidores recuperem e acompanhem a conversa.
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Por Gilberto Consoni
Redator
A web, em sua geração 2.0, oferece diversos serviços gratuitos onde os internautas podem expressar suas ideias e opiniões. A propósito, esta é uma das afirmações das mais panfletárias e das mais utilizadas por entusiastas da democratização da informação que a web pode apresentar. Mas o que esses serviços gratuitos cobram de você? No caso do blog Twitter Brasil o custo foi o nome e a URL que deverão ser entregues à Twitter, Inc.
O blog de @fernandosouza, @gabizago e @raquelcamargo foi criado quando o Twitter ainda não era um serviço muito conhecido no Brasil. A ideia era criar um espaço para explicar o funcionamento e tirar dúvidas em português do serviço, visto que será somente agora em 2010 que o site ganhará uma versão no idioma dos brasileiros.
Na época em que os blogueiros criaram o blog, entraram em contato com a própria Twitter, Inc. para solicitar autorização de uso da marca, a qual foi aparentemente cedida. O fato pode ser conferido no próprio post que trata do tema no blog que, por exigência da Twitter, Inc. já trocou de nome para Twit Brasil.
Os blogueiros ficaram indignados com a atitude e reclamaram no blog e em suas páginas no próprio Twitter por terem que ceder o nome e URL à Twitter, Inc. O protesto ganhou o hashtag #FreeTwitterBrasil e recebeu vários apoios na tarde desta quinta-feira (29). A revolta deles realmente tem fundamento, já que o blog aparece na maioria das vezes como o primeiro resultado nas buscas do Google quando se procura informações do serviço. Não foi a toa também que a Twitter, Inc. exigiu a mudança do nome e da URL, já que um fanblog aparece à frente do próprio serviço.
A atitude da empresa pode ser “moralmente reprovável” como fala a autora Gabriela Zago, mas é de direito legal. Mas como devemos pensar este episódio ao utilizarmos serviços gratuitos ou falar dos mesmos na web?
A Twitter, Inc. cobrou nada mais do que os direitos de sua própria marca. Mesmo que tenham concedido o direito no passado, a empresa tem direito de voltar atrás, já que é o seu produto que está em questão. A verdade que deve ser observada, ainda que também me soe inaceitável, é que o blog Twitter Brasil não existiria sem o próprio serviço Twitter.
Por utilizarem esses serviços web desde a sua origem e por estudarem os mesmos em suas pesquisas, as blogueiras Gabriela Zago e Raquel Camargo certamente sabiam da popularidade que o blog poderia atingir no momento em que o Twitter fizesse sucesso no Brasil. O próprio nome do blog, URL e títulos das postagens publicadas apresentam facilmente as técnicas de SEO que são utilizadas no blog. A propósito, por mérito indiscutível desses blogueiros pelo bom conhecimento da ferramenta e pela relevância do conteúdo postado. Não é a toa que aparecem bem no Google, foram os primeiros a falarem no serviço e falam com propriedade. Mas ainda assim falavam do serviço de uma organização que não é sem fins lucrativos, trata-se de uma empresa que visa lucro e precisa cuidar de sua marca e do seu espaço no mercado.
Ainda que eu também ache um absurdo a atitude da Twitter, Inc. da forma como ocorreu, precisa-se observar que o conceito de Web 2.0 fala em um novo modelo de negócios com participação do usuário, que se pode até dividir o lucro (AdSense), mas ainda é um negócio comercial. No momento em que as empresas que oferecem esses serviços gratuitos se sentirem prejudicadas, tomarão atitudes, politicamente corretas ou não, para reverem seus direitos legais e preservarem seu negócio. Nessas horas tenho medo da Google que controla boa parte de minha vida online.
Creio que a Twitter, Inc. poderia negociar melhor com os blogueiro para compensar o esforço e o trabalho voluntário desses fãs do serviço desde quando a empresa nem se interessava pelo Brasil. É revoltante ver esses blogueiros tão pequenos frente à Twitter, Inc. terem que simplesmente ceder uma outra marca que foi construída.
O que se deve levar de lição deste acontecimento é que quando empenhamos trabalho em um projeto com a intenção de se ter ganho no futuro, pois a própria postagem no blog revoltada com a atitude da Twitter, Inc. fala em ganhos materiais, é que deve ser feito de forma mais profissional. Não é errado querer ganhar dinheiro com um blog, não é errado querer ganhar reputação ao se escrever sobre um serviço, mas é necessário lembrar que esses serviços não são organizações filantrópicas, mas empresas que visam lucro, muito lucro (vide Google, Facebook, LastFm, etc).
O acontecimento com o Twitter Brasil, que pra mim também soa revoltante, não é uma forma de censura, não fere a liberdade de expressão dos blogueiros, mas mostra a verdadeira cara das organizações que administram os serviços gratuitos na web. Precisamos lidar de forma mais madura com esses serviços e cuidar para não ficarmos reféns de ambientes que nós mesmos construímos.
Confira abaixo a entrevista com a autora Gabriela Zago (jornalista e advogada) concedida ao DossiêAP:
Como você classificaria a atitude do Twitter em exigir o nome e a URL do Twitter Brasil?
@gabizago: A opinião dentro da equipe do blog é dividida. Eu particularmente acho justa a exigência (pela questão de proteção da marca), embora não concorde em ter que mudar nome e URL, na medida em que não estamos fazendo um mau uso da marca, e sim buscando ajudar as pessoas com informações sobre Twitter e outros microblogs em português, algo que o Twitter (por enquanto) não oferece.
Legalmente, o Twitter pode tomar esta atitude?
@gabizago: Tendo a marca registrada, sim. É juridicamente possível a exigência, ainda que moralmente reprovável.
Segundo um post no próprio blog, vocês dizem que não discutirão legalmente pelo direito do nome e da URL, por que vocês decidiram isto?
@gabizago: Primeiro porque o acordo parecia amigável, e segundo porque seria um processo internacional, provavelmente envolvendo grandes gastos financeiros.
Como vocês pensam o blog com o novo nome a partir de agora?
@gabizago: Continuaremos a oferecer informações em português sobre microblogs, mas talvez não com tanto gás como antes. A confusão toda nos desmotivou um pouco.
O Twitter ganha ou perde com esta atitude, já que houve grande manifestação com o hashtag #FreeTwitterBrasil?
@gabizago: Tem ganhos para todos os lados. A imagem do Twitter-empresa pode ficar arranhada, mas por outro lado eles estão mostrando que é preciso ter cuidado com o uso da marca.
Houve alguma oferta financeira pelo nome e URL do Blog?
@gabizago: Não.
Caso houvesse, vocês aceitariam?
@gabizago: Estamos usando a marca no endereço, juridicamente seria bem complicado poder exigir qualquer compensação financeira pelo domínio.
Há pessoas que criam URL com nome de organizações com a intenção de vender depois. Vocês pensaram nisto em algum momento antes de criar o blog?
@gabizago: De jeito nenhum. Quando o blog foi criado, o Twitter não era tão popular. Tanto que inicialmente escrevíamos posts sobre outros microblogs também bastante usados na época, como Pownce e Jaiku; A intenção era simplesmente ter um espaço para escrever sobre microblogs em português.
Esta atitude fere a liberdade de expressão de vocês? Como?
@gabizago: Ainda podemos escrever livremente, mas de certa forma nos tolhe no sentido de que a cada post teremos que pensar se fere ou não os termos de uso do Twitter, se podemos ou não colocar um determinado printscreen para ilustrar o texto, e por aí vai.
Vocês mudarão a forma como lidam com os serviços web gratuitos a partir de agora?
@gabizago: Talvez no sentido de prestar mais atenção para o fato de que mesmo um serviço gratuito pode ter por trás uma estrutura corporativa capitalista interessada na otimização do lucro.
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