Watchmen e a nova ditadura das adaptações

Os nerds estão dominando o mundo e iniciando uma ditadura cinematográfica. Tudo começou com 'Sin City', de Robert Rodriguez. De fato, foi legal ver a obra de Frank Miller, que gritava por uma adaptação, no cinema. Mas o filme já sofria da tentativa de adaptar tudo de forma tão literal. Havia um excesso de diálogos que poderia ser resolvido apenas com bom cinema e algumas soluções criativas que um diretor mais talentoso que Rodrigues faria na boa.
Tudo piorou com '300', de Zack Snyder. A transcrição praticamente sem alteração do quadrinho para o cinema criou uma espécie de padrão a ser seguido em todas as adaptações cinematográficas dali em diante. A partir dali, só passou a valer adaptações com visual e história iguais aos quadrinhos. A ditadura dos fanboys foi consolidada com a boa arrecadação de ambos os filmes. E tudo indica que 'Watchmen' vá seguir o mesmo caminho.
O trailer divulgado esta semana mostra cenas que são reproduções exatas da graphic novel de Alan Moore. A veículo do Coruja saindo do Rio, o Comediante arremessado pela janela, Jon no Vietnã - está tudo igual à HQ. Se por um lado tais adaptações eliminam o risco de que porcarias hereges sejam levadas às telas, essa fórmula limita muito o que pode e o que não pode ser feito no gênero das adaptações em quadrinhos. E está matando idéias que poderiam revolucionar de verdade.
Duas vítimas já foram feitas: Darren Aronofsky e Paul Greengrass. O primeiro foi escolhido para dirigir um filme do Batman, com baixo orçamento e que provavelmente seria feito em preto e branco, como 'Pi'. Não vingou a idéia. Greengrass, o mais brilhante diretor da atualidade, trabalhou anos no projeto de Watchmen para depois ser sacado pela Warner.
A franquia do Batman ficou então nas mãos de Chistopher Nolan, de 'Amnésia', que fez um Batman Begins terrivelmente ruim. Não sei se é culpa dele, já que ele teve mais controle em Dark Knght e mandou bem. E foi bem justamente por criar Batman segundo sua própria visão - claro que bastante inspirado em 'Batman: Ano Um', de Frank Miller. Respeitou o personagem e os quadrinhos, mas não ficou escravo da fidelidade total, conceito que se tornou sagrado de uns anos para cá.
O mesmo caminho tinham seguido Tim Burton, autor dos melhores filmes do Batman, e Richard Donner, que fez de 'Superman' simplesmente o melhor filme de super-herói de todos os tempos. E Bryan Singer merece menção honrosa pelos dois ótimos 'X-Men'. (Mas 'Superman Returs' é de doer).
Agora, o que Snyder tem a oferecer além de uma transposição fiel de Watchmen para o cinema. Será que não sairíamos ganhando se ele realmente adaptasse a história, não apenas reproduzisse quadro a quadro a história de Moore? Lembrando que Snyder foi o diretor de 'Madrugada dos mortos', talvez o melhor filme de zumbis de todos os tempos.
Por isso entendo toda a rabugice de Moore e de Art Spielgman - que já rejeitou várias ofertas por uma versão de 'Maus' para os cinemas. Tanto 'Maus' quanto 'V de vingança' e Watchmen não precisam ser adaptados. Está tudo nos quadrinhos. No máximo, a nova obra seria um pastiche do que foi realizado nos quadrinhos. É disso mesmo que precisamos?
