Cinema nacional de elite
Considero a mediocridade do cinema brasileiro um prazer. Por raras vezes, você acaba sendo surpreendido por uma obra excepcional num oásis de imbecilidade. “Tropa de Elite”, que vazou recentemente na internet e deve ser lançado em setembro, é um dos poucos exemplos que existem.
A comparação direta com “Cidade de Deus” é inevitável. Os primeiros 10 minutos do longa-metragem deixam o espectador com um pé atrás: “Ok, mais um filme de violência nas favelas cariocas”. Ledo engano.
Passadas as cenas iniciais, a obra ficcional dirigida pelo estreante José Padilha, que já havia feito o documentário “Ônibus 174”, vai se distanciado do marco CDD e cria uma identidade própria e de difícil relação com outro filme nacional nos últimos 20 anos.
Padilha abandona o discurso do pobre vitimizado, da classe média trabalhadora e responsável e de que os verdadeiros bandidos estão na polícia. Já na leitura mais simplista da obra estão assuntos poucas vezes discutidos: Quem financia o tráfico nos morros cariocas? Quem são as pessoas que saem às ruas para pedir paz e fazer protesto quando um jovem de classe média é morto? Na visão do diretor, a maconha que o universitário fuma é a responsável pela morte de crianças faveladas. É como se o deputado federal Fernando Gabeira (PV) já tivesse matado uns 100 moleques.
Párápárápárápápápá...
Baseado em relatos de oficiais do BOPE, a tropa de elite da Polícia Militar carioca, o longa de Padilha faz um retrato caricato, mas com verossimilhança, dos homens que ainda acreditam na Justiça e colocam suas vidas em risco para tentar salvar a sociedade. Os policiais comuns, de azul, até são corruptíveis. Policiais do BOPE, não.
Alguns vícios do cinema moderno (ou talvez tendências) ajudam na narrativa eletrizante. Montagem dinâmica, câmeras trêmulas e filtros sujos nas lentes aproximam a obra de Padilha com o público jovem acostumado com vídeo-clipes. A escolha de funk proibidão para sonorizar os dois momentos de maior tensão se torna uma escolha primorosa. Nada mais violento, pobre e carioca que um batidão com metralhadoras disparando para todos os lados. É lindo.
Até o canastrão Wagner Moura consegue se dar bem. É dele a voz que faz toda a narração do filme, estilo Martin Scorsese. A interpretação de Moura é irrepreensível. Em momento algum, o protagonista alivia na tensão do personagem, o que ajuda o espectador a sentir o stress diário que estes policiais do BOPE devem sentir.
“Tropa de Elite” é o que Scorsese não conseguiu ao realizar o péssimo “Os Infiltrados”, com temática semelhante.
Lá vem
Após o vazamento de “Tropa de Elite”, o diretor anunciou que a versão roubada ainda não era a final, e que o produto que chegará às telas passará por mais detalhamento técnico e edição. Só se ele for um estúpido. A versão que chegou às mãos dos camelôs chega a um nível poucas vezes alcançado neste meridiano.
Dr. Nacho
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