
A primeira banda que comecei a gostar na vida foi Legião Urbana. O termo em latim Urbano Legio Omnia Vincit (Legião Urbana Vence Tudo) foi uma das primeiras assinaturas no meu e-mail e até pouco tempo atrás conservava uma frase de Renato Russo como assinatura: E nossa história não ficará pelo avesso assim, sem final feliz. Teremos coisas bonitas pra contar. E até lá, vamos viver. Temos muito ainda por fazer. Não olhe pra trás. Apenas começamos. O mundo começa agora. Apenas começamos.... E eu também comecei...Comecei a escrever poesias e contos após ouvir o cd O Descobrimento do Brasil que ainda considero o melhor da banda (curiosamente, um dos menos comentados) e um dos maiores do rock brasileiro. Então, inegavelmente, Renato Russo é uma figura fundamental na minha vida profissional e artística.
Este não é um texto cheio de elogios melancólicos ao cantor. Este é um texto de protesto.
Me impressiona que Renato Russo não conte do mesmo descanso que Cazuza e Raul Seixas têm. A banalização em torno do nome do líder da Legião Urbana é enorme. A ponto de Alexandre Pires e Ivete Sangalo já terem prestado “homenagens” ao poeta no Domingão do Faustão (com direito a “tira o pé do chão”) e a figura obviamente punk chamada Luciano (aquele do filme, lembra?) prestar depoimento sobre o cantor. A carne e os ossos de Renato Russo (leia-se: suas letras e sua história) são hoje a cada ano combustível para mais apelações e “especiais” sobre um dos maiores letristas do rock brasileiro (comparável apenas a Cazuza e Raul Seixas).
Ao invés de respeito e homenagens pertinentes, a cada ano, temos mais exploração em torno da imagem de messias (que o próprio Renato sempre detestou) e voz de uma geração (como se o seu trabalho não fosse imortal e, por isso mesmo, tão comercialmente explorado). Assim como Kurt Cobain, o número de regravações e explorações em cima do cantor aproximam-se cada vez mais do termo incontável. O Biquíni Cavadão ressuscitou uma obscura gravação da insossa canção Múmias com a voz de Renato Russo e membros do Capital Inicial já cogitaram lançar músicas do Aborto Elétrico, grupo que juntava membros do grupo com o próprio Renato Russo antes de fundar a Legião, ou seja, regravarão músicas de uma banda que o próprio cantor deixou. Vale tudo para pegar mais um naco de pele, mais um pedacinho do mito que produtores e outros empresários musicais consideram como uma mina de ouro.
Só que não é mina de ouro não...É um artista que merece respeito e deve ser lembrado não com tributos de nomes como Charlie Brown Jr. (ainda bem que Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, remanescentes da Legião, já se recusaram a tocar em shows de Chorão ou poderiam receber um soco do vocalista Chorão), Vanessa da Matta (um grande “expoente” do rock brasileiro, sem dúvida) e Detonautas (uma espécie de “heavy CPM 22”), mas em homenagens pertinentes e por gente que realmente participou da história da banda ou foi influenciado por ela. Não por “artistas” que surgiram ontem e busca um pouquinho da glória de um artista que morreu e deve descansar em paz.
Lembro que no último CD da banda, o ótimo Uma Outra Estação uma das minhas músicas favoritas era Marcianos Invadem a Terra, que será a penúltima música do tal tributo do Multishow hoje, cantada por Dinho Ouro Preto (ex-Aborto Elétrico). É uma ironia ímpar, afinal de contas, a música (pouco lembrada pela maior parte dos fãs) resume muito bem o que o próprio Renato diria de todo esse canibalismo cultural:
“Ora se você
quiser se divertir
invente suas próprias
canções”
Texto originalmente publicado no Sobrecarga e reescrito para homenagear o cantor no aniversário de sua morte.
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